O psicoterapeuta e educador Leo Fraiman apresenta no livro “A Síndrome do Imperador” (editora Autêntica) uma reflexão essencial sobre a formação de jovens: será que estamos, sem querer, criando pequenos tiranos dentro de casa?
Com mais de 20 obras publicadas, Fraiman defende que os pais precisam resgatar a autoridade, sem abrir mão do afeto. Ao tentar ser apenas “legais”, muitos se esquecem de ser leais a si mesmos, aos valores que desejam transmitir e ao papel educativo que desempenham.
No trecho a seguir, o autor explica o conceito que norteia a obra e destaca a importância de equilibrar liberdade e limites na criação dos filhos — evitando que a permissividade excessiva resulte em jovens emocionalmente frágeis e desorientados.
Síndrome diz respeito a um conjunto de fatores ou sintomas que costumam aparecer e durar por um tempo, não apenas em momentos pontuais, gerando um prejuízo visível para a saúde física e/ou mental do indivíduo — como ocorre na síndrome do pânico, por exemplo.
Assim, definimos a síndrome do imperador como um conjunto de sintomas que envolvem imaturidade psicológica, intolerância com regras, limites e leis, irritabilidade diante de frustrações, insegurança emocional e atitudinal, insatisfação generalizada, ingratidão com os demais e a vida, inadequação para o mercado de trabalho, incapacidade de lidar com frustrações, instabilidade para tomar decisões, imperatividade social.
Percebemos esses sinais no indivíduo que foi tratado como alguém extremamente especial, como se realmente fosse um imperador, um príncipe, uma princesa. Quando a vida — representada na figura do amiguinho, do treinador, da professora, do guarda de trânsito… — mostra que esse indivíduo é um cidadão igual aos outros, ele não aceita.
Nesses momentos, reage com violência contra si ou contra os outros. Também pode acabar bebendo, comendo e dormindo demais. Sem ter desenvolvido o autodomínio, acaba deixando de sonhar, de estudar, de tentar, de se organizar para a vida.
Com autoestima baixa, ele percebe que é fraco. E aí começa a racionalizar e dizer “eu nem queria mesmo”, “não preciso”, “é besteira”.
Diante da fustração, o sentimento de que podem agredir.
Os pequenos imperadores não foram treinados a esperar, a ter empatia, a negociar, a criar, a buscar por si mesmos, a resolver as próprias questões, a honrar seus compromissos. Ou seja, não houve em casa um treinamento de moralidade, de empreendedorismo, de proatividade, de cidadania.
Então, no momento em que são frustrados pelo outro — seja o segurança da balada, o sinal de trânsito, o professor, o namorado ou a namorada —, eles se sentem no direito de agredi-lo. Trata-se de uma cegueira em relação ao outro: não se vê a outra pessoa, só a própria necessidade, narcísica, de passar por cima de quem ou o que quer que seja.
Muitas crianças são tratadas hoje como príncipes ou princesas. Nas redes sociais, muitos pais usam como foto de perfil uma imagem do filho ou da filha. Essas são manifestações comuns na cultura brasileira, que, por vários fatores, coloca a criança no centro da família.
“Meu filho é a coisa mais importante da minha vida”, “pelo meu filho eu faço qualquer coisa”, “fazer a minha filha feliz é o que eu mais quero”, são mantras comuns da família atual. O que era para ser um ato de enobrecimento acaba virando um empobrecimento: se a mãe precisa ser perfeita, seu filho também deve ser.
Para isso, ela tem que suprir todas as necessidades dele, não pode deixar lhe faltar nada. O filho precisa ter todos os privilégios, todas as vantagens. No intuito de serem “legais”, muitos pais e mães se esquecem de ser, antes de tudo, leais: a si mesmos, aos combinados, à escola, à lei.
Pais que querem a todo custo ser legais aceitam tudo em nome da pretensa felicidade e do desejo de serem amados pelos filhos, provocando, ironicamente, o oposto disso, pois filhos imperadores, que dominam os pais, não desenvolvem nem a gratidão, nem a empatia, nem a paciência, elementos essenciais a uma vida boa.
Pais que não são leais àquilo que promove saúde, respeito e educação acabam por pagar um alto preço. Os pais se tornam os betas, enquanto os filhos viram os alfas da casa.
Outro fator é a crença no rápido, no simples e no atalho, muito inspirada na cultura norte-americana, extremamente competitiva. Assim, quanto antes o filho falar e souber nadar, melhor. Quanto mais esportes ele fizer, quanto mais habilidades tiver, mais admirado será.
Isso é o oposto da cultura francesa, por exemplo, que aposta na autonomia, no tempo e em uma formação que venha de dentro para fora — ou seja, que deixa a criança resolver seus problemas por si. Muitos pais, por não terem consciência de seu papel educativo, querem para seus filhos todas as vantagens e privilégios do modo mais acelerado possível, já que acreditam que isso é bom para os jovens.
Um terceiro fator é que temos hoje a percepção bastante frequente de que a vida do adulto está chata. Todo dia ele vê seus impostos aumentando, os empregos diminuindo, os amigos perdendo postos de trabalho. A vida adulta não está fácil para ninguém.
Então, algumas pessoas buscam driblar suas questões existenciais — seus problemas no casamento, as dificuldades geradas pela crise da meia-idade e pelo trabalho —, dando um sentido para a própria vida ao agradar o pequeno ser que é o filho. Essa tentativa de compensar o próprio vazio preenchendo todas e quaisquer necessidades dos filhos é um mergulho narcísico.
De fato, é gostoso para qualquer pai, qualquer mãe, ver o filho feliz. É uma sensação agradável, e isso acaba se tornando um vício, porque o desejo da criança não tem fim. Esse pai e essa mãe não entendem a diferença entre prazer e felicidade.
A felicidade é algo construído, de dentro para fora, pelo próprio indivíduo. E muita gente a confunde facilmente com o prazer, daí o vício em agradar. Porém, é importante que os pais entendam que não é possível driblar as angústias da vida.
A reflexão sobre si mesmo, o autoconhecimento é necessário para uma vida boa. Como disse o filósofo grego Sócrates, “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”. Afinal, cada um tem que construir a própria história, e não tomar emprestada a vida do filho.
Outra questão é que, em nosso país, os padrões, as referências e os limites nas relações, sistemas e instituições muitas vezes não são claros. Somos o país do espontâneo. Falta entre nós um padrão educacional e a definição de um papel claro para o pai e para a mãe.
Essa espontaneidade muitas vezes torna os pais escravos dos filhos, o que reforça a síndrome do imperador. Se um dia pode, mas outro não; se a mãe não deixa, mas o pai aceita; se a escola não permite, mas os pais deixam, os filhos ficam perdidos. E se perdem.
*Fonte:
Por Leo Fraiman/Gazeta do Povo
Agende o horário para seu atendimento.
Conheça os convênios disponíveis.
Publicações referentes à saúde mental.
Não existem verdades absolutas.